sexta-feira, 11 de março de 2011

Retorno ao Deserto إمارة دبيّ

É chegada à hora de partir, com direito a friozinho na barriga e choradeira. Fico muito emotiva nestas horas. Enquanto embarcava com a Anne no Aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre, meu marido estava dentro de outro avião em direção ao mesmo destino que o nosso, o Aeroporto Internacional de Guarulhos. O encontro da família foi em São Paulo, e de lá, seguimos viagem na mesma noite até o nosso novo lar nos Emirados Árabes Unidos.

Finalmente estamos todos juntos em Dubai. Passo os dias em casa ou passeando com a família atrás de coisas interessantes e necessárias para deixar o nosso lar ainda mais aconchegante. Ao percorrermos as largas avenidas da cidade, sinto estar em uma cidade futurista saída dos filmes de ficção. Meu visto de residente já ficou pronto e agora poderei marcar as aulas de direção que são obrigatórias para tirar a carteira de motorista. Ainda não tenho permissão para dirigir para lugar algum, se for pega guiando sem a devida habilitação, vou presa e depois deportada do país.

Tudo é grande por aqui, parece ter coisas em comum com a cidade de Itu no estado de São Paulo. Por esta banda do globo terrestre, tudo que reluz pode realmente ser ouro. Dubai transpira ostentação! Grande parte da renda do país é vinda do turismo, existem muitos programas turísticos que enchem os olhos enquanto o bolso esvazia.

Os Emirados Árabes Unidos (que engloba sete Emirados) é um país muçulmano, mas muito aberto ao mundo ocidental, principalmente os Emirados de Dubai e Abu Dhabi. Mas, é claro, as regras são ditadas de acordo com o Islã. Totalmente diferente da Arábia Saudita, aqui as mulheres podem tirar carteira de motorista e dirigir, com autorização você pode comprar bebida alcólica em estabelecimentos específicos, existem cinemas, não é obrigatório usar a abaya e a shayla (vestido e lenço pretos que, na Arábia Saudita, todas as mulheres muçulmanas tem que vestir) e, em alguns supermercados você encontra, no setor para no muslims (não muçulmanos), carne de porco e seus derivados. Mesmo sendo um país “aberto”, muitas mulheres muçulmanas ainda dirigem com os seus lenços negros esvoaçantes e transitam pelos locais públicos arrastando seus trajes negros pelo chão.

Inevitavelmente, acabo fazendo comparações com outros países em que já moramos. Procuro ver o lado bom e curtir a parte boa que o lugar em que estamos nos proporciona. Fui muito feliz durante o período em que moramos na Arábia Saudita, um país muçulmano e fechado por conta da religiosidade e seus costumes. Lá, tive uma rotina cheia de atividades, conhecia lugares legais e baratos para suprir minhas necessidades básicas e até mesmo as mais excêntricas. Agora, recém-chegada nos Emirados Árabes, tudo é novidade. Terei que desvendar Dubai, explorar cada canto e fazer novas descobertas para satisfazer meu ego e meu bolso. Redescobrir sabores palatáveis!




sábado, 15 de janeiro de 2011

Chegada da Cegonha

Sonhar é algo transcendental. Através dos sonhos reproduzimos angústias, medos, verdades e muitas coisas desejadas. Nos últimos meses passei a sonhar diferente, nos meus sonhos havia uma terceira pessoa para viajar, passear, mimar e amar.

Cheguei a pensar que não poderia ou até mesmo que não queria ter filhos, porém, com uma necessidade latente de seguir o rumo natural da história da humanidade, fiquei grávida. Em setembro do ano passado dei à luz uma mortal cheia de graça e beleza. Anne, nossa primogênita virginiana com um charmoso furo estampado no queixo, nasceu na cidade de Porto Alegre, no mesmo hospital em que meu marido e eu nascemos. Enquanto a Anne crescia em meu ventre, minhas idas e passeios a lugares exóticos continuaram. Algumas vezes me acordei no meio da noite e me surpreendi com meu estado grávido. Não tive enjoos, e meus desejos gastronômicos aumentaram durante os nove meses de gestação. Passei a ter azia de tanto comer.

Muitas mudanças vieram acompanhadas da chegada da Anne. A empresa saudita em que meu marido trabalhava estava indo à falência e eu entrava no oitavo mês de grávidez. Estava decidido que voltaríamos a morar no Brasil, e deixei Jeddah, na Arábia Saudita, no final de junho. Desembarquei no Aeroporto Internacional Salgado Filho com dez malas abarrotadas de coisas e muita história para contar. Junto, trazia o Gato Kimba a tiracolo e carregava a Anne em meu ventre. A empresa que meu marido trabalhava encerrou as atividades uma semana antes do nascimento da Anne, e no toma lá dá cá da vida, acabou aparecendo outra proposta bacana de trabalho fora do Brasil. Realizei muitas trocas de fralda, assim como o curso para casal gestante, sozinha. Como recompensa, meu marido participou incansavelmente dos meus últimos dias barriguda e dos vinte primeiros dias de vida da nossa filha.

Nossa filha nasceu com saúde e nos trazendo grandes alegrias. Nestes quatro meses desde o nascimento da nossa pequena, a rotina mudou, e com instinto e naturalidade, aprendi rapidamente a ser mãe. Há alguns dias atrás, o Gato Kimba teve a sua exportação concluída e desembarcou sozinho nos Emirados Árabes depois de perder a conexão em Amsterdã. Com tantas mudanças profissionais do meu marido, ainda me encontro em Porto Alegre. Anne, alheia a tudo, não sabe direito o que está acontecendo. Já eu, aguardo ansiosamente pela viagem nos próximos dias até a cidade onde será o nosso novo domicílio, Dubai.

Devemos ter em mente que cada sabor é único e que precisamos prová-los sem receios, no momento presente, em tempo real. Procuro condimentar cada momento e sentir o gosto que tem cada coisa e cada um. Hoje sou mãe, meu prazer está voltado a este novo sabor, onde saboreio cada ingrediente e deixo ainda mais apimentada minha vida como mulher.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Síria

Saímos de casa para o aeroporto antes mesmo do dia clarear. Eram cinco horas da manhã e o silêncio da madrugada deixou o som vindo dos minaretes das mesquitas ainda mais intenso. Acontecia a primeira reza do dia e os fiéis encaminhavam-se silenciosamente em direção aos locais de oração enquanto os grilos estrilavam. Embarcamos no voo da empresa low cost SAMA AIRLINES com destino à cidade de Damasco, na Síria.

Acho uma lástima os muçulmanos sauditas não gostarem de fotos e não aceitarem que a máquina fotográfica seja usada em muitos locais públicos. Este voo teria rendido imagens bastante curiosas. A maioria dos passageiros deste trecho eram muçulmanas iraquianas que estavam indo ou voltando da peregrinação até a cidade de Meca, conhecida como “peregrinação menor”, chamada de Umra. Esta peregrinação é feita em qualquer época do ano, diferente do Hajj, que acontece uma vez por ano em determinada data. Tanto o voo de ida quanto o de volta veio cheio destas iraquianas gordas que carregavam imensos sacos em suas cabeças. Elas queriam sentar em qualquer assento e tinham riscos pretos tatuados em seus rostos e suas mãos. Em coro, rezavam em voz alta próximo ao momento do pouso e da decolagem. No voo Damasco-Jeddah houve um atraso em razão de duas destas iraquianas terem defecado no chão da aeronave em frente ao banheiro traseiro. Foi até engraçado!

O visto para entrada na Síria foi retirado no desembarque, mas havia sido encaminhado alguns dias antes através de uma agência de turismo local. De certa forma, achei o aeroporto e a cidade limpos e organizados. A moeda do país é a libra síria, desvalorizada e com muitos zeros. Alguns lugares aceitam dolares americanos e euros. Damasco concorre ao título de “a mais antiga cidade continuamente habitada do mundo”.

Ficamos hospedados no Orient Palace Hotel, localizado na parte antiga da cidade, à 200 metros da parte histórica de Damasco. Em frente ao hotel existe uma vistosa estação de trem desativada, com um relógio em sua fachada e no seu interior fotos antigas da época em que grandes comerciantes e suas mercadorias circulavam por aqui. O hotel é da década de quarenta e conserva a mesma mobília e decoração de antigamente. Sem manutenção e sem grandes confortos, o banho era espetacular e o café da manhã servido com deliciosos baguetes (influência do mandato francês), acompanhados de labnah e azeitonas ao estilo árabe.

Circulamos pelas ruas da cidade e visitamos o Museu Nacional de Damasco, a Capela de St. Ananias e o Azem Palace. Depois de vagarmos por um longo tempo pelos labirintos do Souq al-Hamadiyyeh nos deparamos com a grandiosa Mesquita Ummayad e muitas pombas recebendo alimentos dos visitantes do local. Para entrar neste monumento islâmico, os sapatos são retirados e as mulheres cobrem seus cabelos usando um manto fornecido por eles. Aproveitando para fugir do calor, fiéis realizavam suas refeições sob o piso de mármore existente no pátio. No interior da mesquita, muçulmanos se curvavam em direção a cidade de Meca (centro do universo para eles), cumprindo os rituais diários de reza em homenagem ao grande e poderoso Allah. Os muçulmanos chegaram em Damasco no ano de 636.

Durante estes dias, não usei o meu modelo gótico da vestimenta tradicional muçulmana, e deixei minha abaya repressora trancafiada na mala durante a minha agradável estada na Síria.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Minha Sogra nas Arábias

Existem muitas histórias de problemas de noras e genros com suas sogras. Não é à toa que várias piadas são criadas baseadas neste tipo de relacionamento. Minha mãe tinha vários poréns com minha avó paterna, e minha sogra ídem com a sogra dela. Já eu, não posso me queixar.

Minha sogra veio nos visitar nas arábias, ficou vinte e nove dias na nossa casa, já que o visto que foi-lhe concedido era de trinta dias. Demorou até o visto dela ser liberado pelas autoridades do país. Se o filho dela não fosse casado ou se eu não morasse aqui com ele, o país não emitiria a carta necessária para obtenção do visto junto ao consulado no Brasil. Tudo muito confuso. Porque se inchallah não quiser, nada acontece nas Arábias!

Agendamos com uma agência de turismo local alguns passeios oferecidos a estrangeiros. Passeio de barco pelo Mar Vermelho, visita ao museu e outros locais culturais da cidade, um mercado de animais, e um acampamento noturno para assistir ao ritual do casamento tradicional árabe. Fechamos um pacote com a empresa através de contatos telefônicos e via e-mail. Bem ao estilo saudita, os valores, datas e a programação foram alterados diversas vezes sem argumentos. Nos frustramos durante todas as tentativas, e sendo assim, partimos aos locais que estamos familiarizados para minha sogra conhecer e aproveitar a estada dela em Jeddah.

Fomos novamente à cidade de Taif, desta vez aproveitamos para andar no teleférico. Almoçamos no restaurante do hotel Ramada que fica no cume da montanha. Muitos macacos babuínos apareceram pedindo comida pelas janelas do restaurante fazendo macacadas. Tomamos sorvete no parque aquático existente junto ao teleférico e descemos pelos trilhos dos carrinhos que complementam a diversão do local. Os carrinhos ganharam velocidade e as abayas dançaram esvoaçantes ao vento enquanto muçulmanas cobertas até os olhos acompanhavam seus filhos na piscina. Um agradável passeio pela região serrana do deserto saudita!

Fomos atrás de leite de camela fresquinho e levamos minha sogra para se apresentada aos camelos do deserto, conhecidos como dromedários. Existem várias tendas com pequenas criações de camelos à beira da estrada. Os grandes bichanos blateraram fortemente ao chegarmos. As tetas das camelas estavam protegidas por bolsas e eles ordenharam uma delas para vender dois litros de leite para nós. A bacia encheu-se com uma branquíssima e farta espuma. Os beduínos leiteiros não davam uma palavra em inglês, mas sorridentes, fizeram pose para as fotos que tirávamos. Voltei com um saco de leite quentinho em meu colo, e ao chegarmos em casa, bebemos este cremoso e saboroso leite que ainda estava morno. Com o restante do leite, peparei uma ambrosia e um pudim de leite de camela. Tudo testado e aprovado pela minha sogra. A sogrona partiu satisfeita da temporada nas arábias e teve momentos bastante agradáveis ao lado do filho e da nora. Precisou comprar outra mala para transportar suas compras e teve que deixar outras tantas para levarmos depois.

Tenho sete textos escritos pela metade que precisam ser terminados para poder postá-los. Nem mesmo Allah, com seus super-poderes vai fazer isto por mim. Preciso sentar na frente do computador para concluí-los, coisa que tenho deixado de lado nos últimos meses. Até mesmo e-mails eu tenho deixado de responder. Um horror! Este post é um dos sete que estavam pendentes, e devido a uma amiga que malcriadamente me falou esta semana que os meus contos estavam desatualizados, resolvi terminar pelo menos este. Se ela não anda tonta, eu ando. O meu mundo anda girando muito rápido e já estamos no final de abril!

domingo, 11 de abril de 2010

Convescotes no Deserto

Tive a oportunidade de participar de alguns convescotes na Arábia Saudita. Alguns brasileiros temem este tipo de programa e negam-se a seguir os demais. Outros já foram em algum e juram nunca mais voltar. Como eu não tenho medo e não sofro com o conforto limitado, recomendo a aventura. O medo de alguns é devido a um grupo de nove franceses que foram sumariamente assasinados em fevereiro de 2007 quando visitavam a região do deserto nas proximidades de Jeddah. Volta e meia surgem convites para nos juntarmos a outras pessoas e seguirmos em comboio atrás de espaços perdidos na imensidão do deserto. Sinto-me atraída por eventos que venham acompanhados de certa emoção. Preciso de adrenalina para nutrir meu coração!

O programa diário entre os sauditas é estenderem seus tapetes para realizarem piqueniques em qualquer canto ou lugar. Famílias inteiras reunem-se em cima de imensos tapetes, sentadas ao redor de aparelhos de narguilé fumando suas shishas aromáticas. Pode ser em uma praça, nos canteiros das avenidas, na praia, nas calçadas ou em qualquer terreno baldio. Em todo lugar é permitido que você se abanque e monte seu acampamento. Nas lojas e em qualquer supermercado você encontra utensílios para acampamentos e convescotes. Existem quiosques em toda a extensão da Corniche Road (Beira Mar) onde eles vendem tapetes, encostos de suvaco e outras mordomias para tornar seu piquenique mais confortável. É a diversão mais comum em Jeddah, é lindo de se ver!

Na aridez descampada do deserto você encontra muitas belezas. Em um dos convescotes, conhecemos uma região onde haviam infinitas pedras coloridas de variadas formas e tamanhos. Pedras brancas, verdes, rosas, cinzas e roxas de diferentes tons. O chão estava coberto destes minerais vindos de um tempo remoto. Admirável! Nestes piqueniques longe das cidades, a mulherada aproveita para andar sem as abayas e circulam sem os modelitos islâmicos.

Em um outro piquenique, o pretexto gastronômico foi o de preparar churrasco, outras guloseimas e uma fogueira. Andamos uns cinquenta quilômetros para os lados da cidade de Usfan. O comboio parou no meio do caminho para comprar gravetos e lenha em uma tenda de beduínos e depois seguiu até o local do acampamento antes do sol se pôr. Ao chegar, acomodei meus apetrechos e instalei-me confortavelmente em um tapete, ficando apoiada em um travesseiro mágico. Reclusa em meu silêncio, observei o corre-corre das formigas, as chamas da fogueira e acompanhei o céu se encher de estrelas. Dificilmente consigo ver estrelas na escuridão dos céus de Jeddah. Mas ao nos distanciarmos da capital, a beleza das constelações em firmamento se fizeram presentes. Baseada em meus conhecimentos precários em astronomia, localizei facilmente as Três Marias e fui atrás das luzes da constelação de Órion... Acredita-se que a palavra “arábia” signifique uma “constelação de estrelas”. Isso até passa a fazer algum sentido pela adoração ao sol, a lua e as estrelas que tem sido praticada nesta região desde os tempos antigos.

Girando na ciranda do colorido, gosto de fazer o meu julgamento sobre as coisas, testar sabores com meu próprio paladar e ver paisagens com meus próprios olhos. Observar os prazeres da arte, da natureza e do clima. Curtir pedras sobre pedras, o céu de brigadeiro, e as areias cor de mel antes e depois da noite chegar!

terça-feira, 23 de março de 2010

Um ano em Jeddah

Está fazendo um ano que fixei residência no Reino da Arábia Saudita, na cidade de Jeddah. Muitos achavam e talvez continuem achando um grande delírio morar neste país de religião e cultura excêntricas. Eu estou amando passar por esta experiência e poder viver neste lugar que difere-se do mundo ocidental em muitas coisas. Uma oportunidade única! Kimbah, nosso filho felino, também está amando. Ele passou de um reles bicho vivo de pelúcia de apê para um gato rueiro e apaixonado. O Gato está se sentindo um tigre nas Arábias. A família segue feliz vivendo pelo Oriente Médio... Meu marido, mais do que nunca, diz que o mundo se divide em dois: o mundo ocidental, e o resto.

Por incrível que possa parecer, Jeddah é uma cidade arborizada e florida. Frondosas flamboaiãs, palmeiras, coqueiros e muitas tamareiras contrastam com a paisagem do deserto e as águas do Mar Vermelho. Além do sistema de irrigação instalado nas áreas de lazer espalhadas pela cidade, caminhões-pipa dão de beber às flores e árvores que desabrocham e florescem nos canteiros das grandes avenidas. Poucas ruas possuem nomes, somente as principais, e não existe numeração nos prédios. Você deve procurar endereços por referências. Com o passar dos meses a desorganização passa a ser comum e você acaba acostumando-se com a idéia e achando o que procura. A pessoa que pretende receber algo pelo correio, até mesmo uma simples fatura de cartão de crédito, deve procurar os correios e alugar uma caixa postal. Organizamos nossas saídas de casa com base no horário das rezas, já que são cinco rezas diárias e todo o comércio fecha por aproximadamente trinta minutos. Nos supermercados, eles anunciam que a reza vai começar e você tem que correr até o caixa mais próximo para passar suas compras, ou terá que esperar a reza terminar. Percebi que meu marido passou a gostar de irmos próximo destes horários. Neste caso, não consigo concluir a compra de todos os meus desejos insanos e o valor da conta acaba sendo mais baixo.

Li e escutei muitas histórias a respeito dos costumes antes de virmos para cá. A fatura do cartão de crédito chega em números árabes e vem com a data do vencimento de acordo com o calendário lunar, deixando sua decifração quase impossível até mesmo para os habitantes do planeta árabe. As vezes, quando mulheres andam desacompanhadas, alguns árabes gostam de espichar o olhar, principalmente para estrangeiras com cabelo descoberto. Mas também não dou chance ao azar. Uma vez fui perseguida em um shopping da cidade por um destes arabinhos devidamente fardados. Deixei o senhor gordo de meia idade zonzo e despistei-o em uma loja que possui sistema de escadas rolantes em seu interior. Todos os outros acontecimentos neste sentido são de pouca importância e não passam de olhares curiosos de um povo que foi, e continua sendo, criado e educado com base nas interpretações distorcidas do Livro Sagrado do Islamismo, o Alcorão. Alguns jovens que tiveram dinheiro para estudar nos Estados Unidos ou na Europa, parecem pensar um pouco diferente. As vezes, parece que a nova geração vai parar de seguir o calendário lunar lunático e passar a seguir o calendário gregoriano, como fazem a maioria dos simples mortais.

O que uma sociedade acha estranho, a outra pode achar como sendo normal. No transcorrer deste ano que passou, vivendo delirantemente por estas bandas do globo terrestre, aprendi coisas novas e enriqueci meus pensamentos. Fiquei um ano mais velha, cresci por dentro e alimentei a alma da criança que ainda existe dentro de mim, que não faz muita questão de virar adulta nem tão pouco envelhecer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Retorno ao Cárcere Saudita

De férias em Porto Alegre, passei a sentir saudades da minha rotina saudita. A sensação de ter dois lares é por vezes estranha. Quando você está se acostumando com um, chega a hora de partir para o outro. Somente agora pude mexer na mudança vinda do período em que moramos em Taipei, Taiwan. Muitas surpresas ao abrir cada caixa: talheres, louças, objetos chineses, imagens e quadros de Buda. Um mundo de quinquilharias que poderiam ter se perdido nas profundezas dos oceanos durante o trajeto até o Porto de Rio Grande. Mas eu senti apego a elas e agora precisarei tempo e lugar para acomodá-las em nossa residência gaúcha. A nostalgia fez-se presente no desencaixotar e veio acompanhada de relatos que passavam em minha mente. Peças nutridas de emoções que acompanharão minha historieta terrena. Preciso exercitar mais o desapego.

Os últimos dias da temporada gaudéria de verão foram assoberbados. Todas as manhãs participava de aulas para aprender a fazer flores artificiais. De volta à Jeddah, continuei praticando esta arteterapia em solo arábico e fazendo flores de tecido para transformá-las em porta docinhos personalizados. Junções familiares, reencontros em botecos, e uma festa de encerramento da temporada que foi dedicada ao primo Osama, compuseram os rituais festivos antes do meu retorno. A festa foi no BAR BONGÔ, na Cidade Baixa, onde o mulherio passou a noite pedindo o sorteio do camelo que cantarolava em árabe, camelo este originário da arábia, legítimo! Os músicos da banda que faziam o show no local nos negaram o palco para realização do sorteio, e tive que subir nas caixas de som do bar para retirar o papel com o nome e divulgar o grande ganhador. Não imaginava que fosse dar tanto ibope, todos queriam levar o camelo baio para casa.

Sempre gostei muito de beber cerveja. Ainda menina, nos finais de semana, meus pais me deixavam beber um copo de Malzibier durante as refeições. Achava aquela bebida docinha uma verdadeira delícia, e acabei pegando gosto pela coisa. Neste vai e vem de acontecimentos, nunca havia pensado em produzir minha própria cerveja. Como na Arábia Saudita o consumo e a venda de bebidas alcoólicas é proibida, passamos a fazer nossa cerveja em casa. Na primeira safra, colocamos até rótulo com logotipo nas garrafas do IKEA, e batizamo-as de Falcon Beer. Além de gostar de beber cerveja, fiquei interessada em suas alquimias e passei a ler um pouco sobre o assunto e procurar curso na área para aperfeiçoamento da técnica caseira atual. Como aprendiz e sem vislumbrar maiores interesses, me inscrevi no curso de cerveja artesanal da Escola de Gastronomia Aires Scavone, em Porto Alegre. O curso teve duração de um dia, e no início da tarde tivemos uma gostosa pausa para um delicioso almoço germânico na escola. Fiquei vidrada com a beleza das folhas verdes de uma linda muda de lúpulo que os mestres cervejeiros apresentaram orgulhosos. Entre controles de temperaturas, altas fervuras, maltes e fermentos, me juntei à turma de interessados em produzir a cerveja “Pale Ale”. Meu paladar ficou tremendamente satisfeito após a degustação, e ofereço esta refrescante bebida bendita a todos os Deuses em seus seis mil anos de história e a todos os outros anos que ainda virão. Meu retorno à Arábia Saudita deu-se um dia após eu me inteirar dos ingredientes e segredos sobre a fabricação da cerveja de panela. Tornei-me uma paneleira confessa. Somos “home brewers” das arábias.

A mesmice consiste em não existir marasmo.O mundo continua a girar... Assim os dias passam e sigo me divertindo pelo deserto. Sem álcool, sem drogas e sem rock n’ roll!



sábado, 20 de fevereiro de 2010

Temporada Brasileira

Sobrevoar a região de Porto Alegre antes de pousar no Aeroporto Salgado Filho me deixa em estado de euforia. É bom poder retornar ao lugar de onde viemos, a nossa terra natal. Chegar ao desembarque e ser esperada por pessoas especiais, não tem preço, é melhor que Mastercard. Tem gente que nem chega a sentir falta da gente, e tem aqueles que dizem que você faz falta, fazem drama, e quando você chega não conseguem um mísero tempo para te ver. São coisas da vida moderna. Fazer o quê?!

O roteiro gastronômico não ficaria de fora durante a minha estada brasileira. Fiz churrasco com minhas próprias mãos, percorri meus restaurantes prediletos e pude provar outros tantos. Descoberta pelo meu irmão a alguns anos atrás, fomos várias vezes na churrascaria Porto Belo, na rua São Manoel. Sou fã da salada de maionese que eles fazem lá. Mas como churrasco bom tem que ser de costela, estivemos na Costela no Rolete. Costela de gado, de porco e leitão à pururuca; sempre regadas com cerveja geladíssima de marcas locais excelentes. Saboreei o risotto de funghi do Peppo Cucina e realizei o desejo de conhecer e provar a culinária francesa do Restaurant Chez Philippe. O ambiente dos jardins no casarão da Av. Independência é agradável e de muito bom gosto. O serviço, a entrada e a sobremesa foram um verdadeiro desastre, salvou-se a caipirinha e o prato principal que estava maravilhoso.

Tenho verdadeira paixão por organizar festas. Gosto de pensar em cada detalhe, dos comes à decoração. Não achando galhos de pinheiro para vender na Ceasa e em meio a ataques de fixação e crises em busca da perfeição, fui com uma amiga a uma praça no bairro Jardim Lindóia. Sentamos para conversar ao lado de dois pequeninos pinheiros, e entre uma conversa e outra, fui desgalhando os coitadinhos até ficaram depenados. Peço que Papai Noel não me castigue por este Crime Ambiental cometido antes da noite feliz. Não quis preparar para a ceia aquele menu tradicional que não satisfaz muito o meu paladar. Resolvi produzir bacalhau ao molho de natas, purê de mandioquinha, salada de aspargos, fios de ovos, torta de sorvete com calda quente de chocolate (minha especialidade), panetone e damascos recheados com chocolate branco e flores comestíveis. Caprichei mais uma vez nesta festividade de fim de ano e preparei um ambiente com esmero para receber a família do meu marido, meus irmãos e três amigas queridas.

Buscando renovar energias e agradecer os bons feitos ocorridos em 2009, arrumei as malas e peguei a estrada em direção ao litoral. Destino: A bela e Santa Catarina! Cada vez que retorno a Florianópolis fico mais apaixonada. Cidade eclética e cheia de novidades. O charme e a tranquilidade de jantar e passear em Santo Antônio de Lisboa, o filé e as batatas flambadas no badalado Chopp do Gus e o banho de mar são coisas que deixam a vida cor-de-rosa. Fazem tudo valer a pena. A virada do ano foi brindada em uma grande festa na casa de amigos, na localidade de Rio Tavares. Saudamos 2010 até o dia amanhecer e o DJ transcender, para não restar dúvidas de que o novo ano chegaria...

O prazer é um grande propósito para se viver e a gula é uma fonte de prazer. Pode ser o cachorro quente do Rosário, uma à La Minuta na beira da estrada, um caldo de cana ou uma mariola. Tudo vira um delicioso banquete quando estamos acompanhados de pessoas especiais. Que venha 2010!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Brasil com Pit Stop Germânico

Minha ida ao Brasil no final de 2009 estava programada, por vezes foi cancelada, e no final do segundo tempo acabou acontecendo. É um ritual ir ao Brasil. Fico bastante eufôrica para rever minhas amigas e meus irmãos mais uma vez. Nas malas, muitos presentes cruzam continentes para agraciar meus entes queridos e compensar minha distância entre oceanos. É época de Natal!

Meu marido meu deixou no aeroporto internacional King Abdul Aziz, na Arábia Saudita, três horas antes do voo decolar. Por ser a época da peregrinação dos muçulmanos à Meca, o movimento no aeroporto estava além do normal. Todo ano, quatro milhões de muçulmanos viajam a Meca para realizar esta peregrinação anual, chamada de Hajj. Vão até Caaba para beijar e dar várias voltas ao redor da pedra preta que tem quatro mil anos. Ao término da peregrinação, os religiosos ainda sacrificam um cordeiro para cumprir este ritual de intensa fé islâmica. Os peregrinos, homens nús, envoltos em toalhas brancas sem costura e fixas ao corpo por um cinturão branco, circulam pelo aeroporto. Despacham, entre suas bagagens, galões das águas sagradas do poço de ZAM-ZAM. Verdadeiras caricaturas que parecem ter saído dos livros de história.

Na sala de embarque, encontrei uma poltrona perdida em meio à multidão. Rabiscava em meu caderninho de anotações enquanto aguardava a chamada do voo LH 597 rumo à Frankfurt. Meu olfato apurou fortes cheiros e tentei adivinhar quanto tempo as pessoas ao meu lado e suas vestimentas não se refrescam em água e sabão. Muitos destes são idosos que juntaram o dinheiro de uma vida toda para cumprir um dos cinco pilares do Islã, que é a peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida. Os membros da família real, que não são poucos (em torno de cinco mil pessoas), nem ousam passar por aqui. Utilizam o Terminal Real, um prédio majestoso com entrada particular e todas as mordomias inimagináveis. Minhas narinas me trouxeram de volta à realidade e embarquei no voo da Lufthansa em meio aos passageiros que em sua maioria era feita de muçulmanos. Prova viva que o islamismo está mesmo dominando a fé mundial.

Já em Frankfurt, comprei o ticket e fui para a estação esperar o trem que partiria em poucos minutos para a cidade alemã de Wiesbaden. Eram nove horas da manhã, o dia estava cinzento e os termômetros marcavam seis graus celsius. O trem deslizava vagarosamente em seus trilhos e o vento gelado entrava por uma das janelas. As árvores sem suas folhas acobreadas e as casas tipicamente germânicas me trouxeram boas lembranças destes lugares que outras vezes passei. A estação de trem de Wiesbaden, assim como as ruas do lugar, são bucolicamente elegantes. As lojas e o calçadão do centro da cidade emanavam decorações natalinas e vendiam árvores e guirlandas naturais que recendinham a pinheiro verdinho recém cortado. Junto à bela arquitetura da prefeitura e da igreja da cidade, acontecia a feira de Natal. Muitos estandes de artesanato, apresentações ao vivo e comida tradicional alemã. Perambulei incansavelmente em meio às tendas e fui atraída pelo cheiro de vinho de uma delas. Comprei uma caneca fumegante com GLÜHWEIN, uma espécie de quentão alemão. Vinho com cachaça, nós moscada, cardamomo, passas, cravo e canela. Continuei a trabalhar meu paladar e em outra tenda comprei salsichas condimentadas. Mais tarde também provei o KARTOFFELPUFFER, que são panquecas de batata com molho de maçã.

É chegada a hora de voltar ao aeroporto para seguir viagem até o meu destino final, o Brasil. Comprei o ticket certo, porém embarquei no trem errado. Quanto fui me dar conta estava em uma cidade estranha, bem distante do meu objetivo, o aeroporto. Tive que pegar cinco trens até avistar a estação correta. Entrei em todos eles sem pagar, torcendo que nenhum fiscal solicitasse o meu bilhete. Eu parecia o cavalinho de madeira dos carrosséis que giravam, subiam e desciam colorindo a feira de Natal. Afinal de contas, o espírito natalino também foi feito para cometermos presepadas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Oração Árabe de Ano Novo


" Que as pulgas de mil camelos infestem o meio das pernas da pessoa que pense em arruinar o seu ano, e que os braços dessa pessoa sejam curtos demais para se coçar. Amém! "
(autor desconhecido)

domingo, 29 de novembro de 2009

Coisas das Arábias

O Reino da Arábia Saudita é o maior país árabe; grande parte dele é só deserto. Jeddah é uma cidade muito rica onde paga-se zero de impostos. A lingua oficial é o árabe mas existe boa vontade por parte do povo para se fazer entender quando o inglês falha ou quando não existe. Algumas vezes me comuniquei através de mímica e adivinhações. Em uma tarde quente de verão, a comunicação falhou com o açogueiro do supermercado Al Raya. Eu só queria saber se a carne ofertada era de ovelha. Apontei para a peça de carne suspeita e soltei um balido com um sonoro mééé. Além do atendente esclarecer minha dúvida ainda caímos na risada.

O valor dos automóveis na Arábia Saudita é bem menor que no Brasil. Carros novos, grandes, espaçosos e luxuosos transitam pelas ruas do país. Ter um carro grande é artigo de primeira necessidade, já que os árabes precisam transportar suas populosas famílias compostas de mais de uma esposa e muitos filhos. Curioso é que os proprietários destes veículos não retiram o plástico dos bancos quando saem das lojas. O interior do automóvel fica protegido com estes plásticos por anos. Depois de se estragarem são substituídos por plásticos novos, alguns mais resistentes. Provavelmente assim eles sentem-se mais à vontade para sujar os carros sem dó algum.

Tenho verdadeira aversão por passar roupa. E evitando passar por este tipo de trabalho forçado em solo arábico, não me dei nem mesmo ao trabalho de adquirir um ferro e uma tábua de passar roupas. Existem lavanderias aos borbotões em Jeddah. Por um preço módico as roupas voltam limpas e super bem passadas em cabides que vão diretamente ao armário. Uma glória! Detesto passar roupas assim como detesto varal de roupas. Da máquina de lavar as roupas deveriam tomar o rumo da máquina de secar. Para a alegria das donas de casa, máquinas revolucionárias de lavar e secar dois em um já circulam nas lojas e lares do mundo com valores cada dia mais acessíveis. Outra glória!

Os salões turcos para o público masculino cortar o cabelo e aparar a barba em estilo Maomé também existem em abundância pela cidade e são muito bons. Durante as rezas, e do meio dia às 17hs, eles fecham suas portas e não atendem ninguém, assim como o restante do comércio. O grande movimento acaba sendo no período na noite, após a última reza, chamada de isha. A cidade fica muito movimentada e o trânsito tremendamente caótico após a isha. Não tem jeito! A cidade para cinco vezes ao dia para escutar o maior hit das arábias. O som sai dos alto-falantes instalados nos minaretes das mesquitas e pelos meios de comunicação do país. A reza lidera o top ten nas Arábias!

Os sauditas não gostam muito de trabalhar. Ganham a vida com a mão-de-obra do trabalho de outras nacionalidades. Todo negócio tem que ter, obrigatoriamente, um sócio e um percentual de funcionários sauditas. A maioria destes sauditas nem aparece para trabalhar, mas nunca deixam de receber seus pagamentos. Pessoas dos mais diversos países trabalham na Arábia Saudita. Nacionalidades que minha geografia limitada não imaginava existir, não ousava conhecer. O mundo é infinito dentro do inimaginável. Verdadeiras realidades irreais!

domingo, 15 de novembro de 2009

Comer, Beber, Viver!

Aprendi rapidamente a amar Jeddah. Largas avenidas com casas majestosas. Comida deliciosa, sucos exóticos e coloridos. Uma cultura diferente que é interessante conhecer, um lugar onde é fácil viver. Sigo os dias comendo, bebendo e vivendo!

Acho uma gracinha os carrinhos que ficam nas ruas e calçadas para o lixo ser colocado. Na cor magenta, eles colorem a cidade e são da mesma cor do uniforme macacão dos garis que tentam manter a limpeza. Já os trabalhadores que cuidam dos canteiros e jardinagem das praças, usam o mesmo modelito profissional, porém são na cor verde.

Diversas cafeterias enfeitam as avenidas e os centros comerciais. O café, cujo nome científico é Coffea Arábica (mesmo tendo origem africana), se adaptou muito bem quando veio para a arábia no século XV. Neste passado meio distante, os frutos do cafeeiro eram assados na gordura e comidos com açucar. A infusão dos grãos teve início no século XVI em Meca e Medina, cidades sagradas e vizinhas da amada Jeddah. A partir daí, passou a ser difundida no ocidente. Sento confortavelmente na poltrona do Barnie’s, do Starbucks, do Costa Coffee, do Second Cup e do The Coffee Bean para assistir ao desfile de abayas negras e de thobes brancos enquanto provo cafés quentes e gelados. Como as mulheres de abaya e os homens de thobe (vestimenta tradicional dos homens sauditas) são tremendamente preguiçosos, as cafeterias mantém centenas de pequeninos pontos com sistema de drive thru. Tenho um amor especial por duas casas de café na Arábia Saudita. Cobertos de sabor bairrista, o Café Tche e o Café Larica são os mais sensacionais para mim.

Os dias passam rapidamente e os segundos parecem acompanhar a velocidade da luz. Criam-se novos laços de amizade e alguns se perdem. Ganho novos amigos, o círculo social floresce e muitos eventos aparecem. Certa noite, empolgada depois de beber algumas taças do vinho artesanal por mim produzido, saí com meu marido rumo à festa de aniversário de uma amiga brasileira em outro condomínio. No meio do caminho, me dei conta que havia saído sem a abaya (vestimenta obrigatória para as mulheres andarem na rua). Sob o olhar perplexo de alguns, chegamos ao nosso destino. Sem transtornos! Adentrei no local da festa com um bolo amarelo em mãos. Ele fora elaborado por mim, e estava enfeitado com graciosas margaridas e flores encarnadas feitas de açúcar. Eis que surge uma simpática portuguesa, chegada a um mês de Lisboa, perguntando-me se a tal Xoxa das Arábias era eu. Ela localizou o blog através do google, a alguns meses atrás, quando buscava informações sobre a vida na cidade de Jeddah. Fiquei toda boba, lisonjeada. Senti sabor semelhante quando recebi encomendas de docinhos e realizei minha primeira entrega de brigadeiros e beijinhos a uma moçambicana.

Os indianos acreditavam que o açucar teria sido criado por Vishwamitra, para alimentar os deuses. Alexandre, o Grande, definiu o açucar como “um mel sólido, obtido sem o auxílio das abelhas”. A beleza da vida é cheia de deuses açucarados. Feita de fatos rotineiros que nos fazem existir com maior plenitude, com doçura. Preciso desta felicidade transcendente para viver! Assim como motivos para continuar os dias comendo e bebendo; com os olhos, o nariz e a boca.

domingo, 1 de novembro de 2009

Pedras de Petra

Amman, capital da Jordânia, superou minhas expectativas. Ela é relativamente limpa e organizada e a vegetação repleta de belos pinheiros. As casas e os prédios apresentam um padrão em suas fachadas com revestimento de pedras esbranquiçadas, e lindamente contrastam com o verde intenso dos pinus. Andar de taxi por Amman sai muito barato, mas você deve pegar os automóveis de cor amarela, que são os que usam o taxímetro.

Pegamos um veículo amarelado e pedimos ao motorista que nos deixasse na rodoviária. Durante toda a manhã, ônibus saem da rodoviária em direção a Petra. A passagem custa cinco Jordanian Dinars (JD) mas com insistência e bom choro sai por três Dinars. Detalhe: o ônibus só parte depois que enche. Árabes com roupas típicas, mulheres cobertas, crianças aos prantos, e um cidadão que fumava sem parar, preencheram os assentos. O ônibus partiu depois de duas horas de espera. Aleluia! O percurso até a cidade de Petra foi feito em quatro horas. As plantações de oliveiras e os rebanhos de cabras coloriram o visual durante o trajeto.

Fizemos o check-in em um hotel de baixo custo escolhido pela internet. Nos aprumamos até a entrada do parque arqueológico, à trezentos metros do hotel. Você tem a opção de comprar o ticket para um, dois ou três dias. Vale a pena passar mais de um dia caminhando e escalando as pedras históricas do lugar. Existem carruagens, cavalos, camelos e jumentos (animais bonitos e bem tratatos) que podem ser contratados. Mas negocie o valor. Petra, que significa pedra em grego, é considereda uma das Sete Maravilhas do Mundo Novo e Patrimônio Mundial da Unesco. A cidade teve grande importância no comércio mundial e serviu de rota comercial bem antes do profeta Jesus nascer. Habitada pelo povo Nabateus, foi destruída por um terremoto em 551d.c., e redescoberta em 1812 por um europeu.

Ainda estávamos no interior do parque quando a noite caiu, foram seis horas explorando os cantos do desfiladeiro. Ficamos encantados com os monumentos escavados nas rochas. Foi o tempo de tomar uma ducha e partir novamente para ver o espetáculo de velas iluminando o lugar. O Candlelight Show acontece três vezes por semana. O público caminha uma hora e meia entre milhares de velas até o templo principal (Al-Khazneh). É importante realizar a empreitada de tênnis, pois na escuridão, as pedras e os buracos também são pardos. Ao chegarmos na Câmara do Tesouro, nos acomodamos em tapetes estilo “voador” e fomos agraciados com um delicioso chá de lemongrasss acompanhado pelas velas, as estrelas e um lindo luar.

Acordamos cedo no outro dia e continuamos a peregrinação para desvendarmos os fascínios das pedras de Petra. Em alguns pontos que se fez necessário repetir as passagens, vimos de outro prisma. A cidade rosa de Petra é encantadora em cada segundo, uma beleza ímpar em cada horário. O lugar agracia os nossos olhos e faz jus ao título de maravilha mundial.

Adoro fazer viagens; para qualquer destino, a qualquer momento e em qualquer situação. Não sou muito ligada a comodismos, mas confesso que também gosto das regalias dos hoteis estrelados. Partimos satisfeitos depois de realizarmos a última cruzada. Voltamos ao conforto do lar saudita, pois voltar para casa também é sempre muito bom.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Banho de Lama no Mar Morto

Planejar e esperar por uma viagem é tão empolgante quanto concretizá-la. Pesquiso algumas coisas do destino na internet e crio expectativas sobre o lugar montando imagens em minha mente. Quando eu era pequena, dias antes de viajar, minha mãe me dizia para deixar sobre a cama conjuntos de roupas para viagem, depois ela passava para fiscalizar o aproveitamento da escolha dos figurinos. Hoje em dia, deixo para preparar a mala poucas horas antes do voo decolar.

Planejamos a viagem à Jordânia três dias antes do nosso embarque. O objetivo em conhecer o país era irmos até a cidade de Petra, uma das 7 Maravilhas do Mundo Moderno. Mesmo sabendo que não teríamos tempo de banhar-nos nas águas salobras do Mar Morto, não consegui tirar esta idéia fixa da minha cabeça. O visto de entrada foi feito rapidamente quando chegamos em Amman, capital do país. Como as primeiras horas em lugares desconhecidos são sempre estranhas, solicitamos ao hotel um taxi particular para nos buscar. Com atraso, o Sr. Motorista apareceu e rumamos ao hotel de vinte dolares em seu carro escangalhado e sem ar condicionado. E, é claro, com uma diária deste valor, o conforto das estrelas oferecidas se encontravam no céu.

O hotel estava localizado na parte histórica da cidade, estrategicamente aos arredores dos pontos turísticos da capital. Fomos até a Citadel e conhecemos as ruínas do Templo de Hércules, o Palácio Ummayyad e a Igreja Bizantina. Como a Citadel fica no alto, o visual foi legal e tivemos uma visão bacana do centro da cidade com suas tradicionais construções. Descemos o monte e fomos visitar o Teatro Romano com seus seis mil lugares. Chegamos exaustos na última fileira; subir tantos degraus e descansar imaginando os acontecimentos que fizeram história, foi o ponto alto do passeio.

A idéia fixa de tomar banho com a milagrosa lama do Mar Morto acabou virando fato. Acertamos o valor do passeio e percorremos em torno de duas horas e meia pelas estradas jordanianas até avistarmos o lago de água salgada. Na margem de cá, a Jordânia; na de lá, a Palestina. Existem vários clubes e hotéis cinco estrelas na orla, você compra o ticket e passa o dia usufruindo o entretenimento oferecido por eles. Entramos em um destes clubes e fomos almoçar no restaurante para provar a comida local. Catastroficamente eu não havia levado roupa de banho, mas mesmo assim não me abalei. A textura da água é bem diferente, escura e parece ter óleo. Realizei um banho em estilo tcheco e lavei bem o rosto, achei que fosse ficar cega quando abri os meus olhos. Meu lábio também ficou extremamente salgado. Depois é que li as instruções em uma placa. Estas águas são consideradas as mais salgadas do mundo e as pessoas não tem como afundar. Um turista boiava tranquilamente na água enquanto lia o jornal. Depois de banhar-me na água que é composta por vários tipos de sais, algumas delas encontradas somente aqui, entrei na fila para o banho de lama. Paguei uma pequena taxa e pude encher as mãos com a lama de cheiro estranho para passar nas minhas pernas, braços e face. Depois do ritual de beleza asfáltico, assistimos ao sol se pondo em território palestino.

Comprei lama embalada para levar para casa, assim como outros produtos mágicos que eles vendem e que são fabricados aqui. Voltamos ao hotel para descanso. No outro dia, o destino foi a rodoviária. Fomos atrás de Petra. Lá, realizamos a última cruzada, sempre lembrando de viver a vida!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Eid Mubarak

Segundo o calendário lunar islâmico, estamos vivendo em pleno ano de 1430, e o Ramadan chegou ao seu final este ano. Resisti bravamente aos dias de jejum e estou liberta dos pecados que habitavam meu corpo e minha mente. Mas ainda tenho a vida terrena toda pela frente para exercitar e praticar os ensinamentos de Allah, que não são nada fáceis de seguir. De qualquer maneira, sabores e dissabores acabam sendo inevitáveis.

Depois de todos os rituais diários exercidos durante o Ramadan, foi a vez de conhecer um pouco sobre as festividades islâmicas do Eid. O festival religioso do Eid ocorreu do dia 20 ao dia 25 de setembro. A grande maioria dos lugares mantiveram-se sem expediente durante estes dias. É uma data em que os muçulmanos recebem visitas, reunem-se com parentes e amigos, trocam presentes e festejam. Inclusive as crianças devem fazer caridade prezando sempre pelo espírito amoroso. Laços de fraternidade são criados. Muitas rezas continuam a ser feitas.

Só que as mulheres menstruadas não podem participar das orações do Eid. Deve ter uma explicação para esta regra escrita no Alcorão, mas não tenho a mínima idéia de qual seja. Nessas horas é que penso que o fanatismo religioso peca nas mais diversas religiões. Sei da loucura do ser, e que muitas pessoas em determinados momentos de suas vidas encontram a salvação nas entrelinhas religiosas. Algumas vezes me pego pensando no porque das coisas. Não tem jeito! Acho que meu culto está mais para as forças satânicas! É impossível saber quando a verdade é verdadeiramente verdadeira. Pelo menos para mim. O ano em que estamos é diferente para cristãos e muçulmanos, a vida é subjetiva e a religião que devemos seguir deve ser a nossa. É sempre bom viver no presente, sem preocupações com o futuro, e sem deter-se demais no passado.

Meu marido tem um colega de trabalho (muçulmano) que tem quatro esposas e dezenove filhos. O islamismo passou a ser a maior religião do mundo. A porcentagem de muçulmanos vem crescendo rapidamente em consequência da altíssima taxa de natalidade entre eles. Deixaremos de herança para as próximas gerações uma cultura completamente diferente da existente nos dias de hoje.

Eid Mubarak para todos nós!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Jejuando no Ramadan

Estamos em pleno Ramadan! Na Arábia Saudita, ele iniciou, neste ano de 2009, no dia 22 de agosto e terminará no dia 19 de setembro. Vinte e nove dias, os mais sagrados do calendário lunar islâmico, onde a pessoa tem que jejuar do nascer ao pôr-do-sol. Como é minha primeira experiência com esta festividade religiosa, deixei para escrever nos últimos dias. Precisava vivenciar e tentar entender um pouco melhor estes fatos imersos em suas crendices e lendas. O país está lindamente decorado com luzinhas, estrelas, luas, lamparinas e tendas. O mundo muçulmano está em festa!

Segundo a tradição, foi nesta época do ano que o profeta Maomé (Mohammed) teria recebido a revelação do Alcorão. Aos pecadores, esta é a oportunidade de redimirem-se dos pecados. Eles ficam sem beber e sem comer para entender como os pobres se sentem. Precisam livrar-se de tudo que vai contra os ensinamentos de Allah. Mulheres grávidas, enfermos e crianças não precisam praticar o jejum.

Quando cheguei em Jeddah, há seis meses atrás, muitas pessoas se referiam ao Ramadan como uma coisa ruim. Muitos ocidentais migram para seus países de origem nesta época do ano. Os não-muçulmanos acham que é um período de abstenção em suas rotinas. Eu curti o Ramadan em cada um de seus detalhes. Curti ainda mais. Durante o Ramadan, os supermercados abrem à partir das 10hs e parte do comércio das 14hs às 17hs. As cinco pausas para as rezas diárias continuam. Nenhum restaurante, cafeteria ou afins funcionam pela manhã ou a tarde. Mesmo os estrangeiros estão proibidos de comer, beber e fumar em público durante a luz do dia. Por volta das 18h30min, dependendo do dia e da região, ocorre a quebra do jejum, chamado de Iftar (café da manhã). Minutos antes deste horário as pessoas lotam as ruas e restaurantes em busca de alimentos. Nas sinaleiras, são distribuídas tâmaras docinhas e macias com laban e água gelada. Depois do café da manhã noturno acompanhado de um farto desjejum, eles voltam a rezar e as ruas ficam desertas. Retomam as atividades à partir das 22hs, que perdurará por toda a madrugada, até o primeiro raio de sol. Não tem balada, mais tem Ramadan! Morcegos do deserto.

Em uma tarde dessas, estava no shopping e me bateu uma sede feroz e incontrolável. Comprei uma bebida no supermercado do Mall e fomos para o carro. Bebemos escondidos, certificando-se que ninguém se aproximava. Beber um líquido inocente e lícito pode resultar em “cana” durante o jejum. Fui a quatro Iftars (café da manhã) aqui em Jeddah. É uma comemoração cara, em torno de cinquenta dolares americanos por pessoa. Em um deles, ao nos servirem, começamos imediatamente a comer. Depois de alguns olhares, fomos advertidos de que tínhamos que parar e aguardar o horário certo para começarmos a comer, depois do horário da reza. Tá ficando difícil se livrar dos pecados. O tradicional Iftar saudita, entre muitas comidas e bebidas, é farto de tâmaras. A tâmara é reverenciada pelo povo árabe. Maomé recomenda ao seus fiéis que idolatrem o fruto como sendo um membro da família. Ele afirma que a tâmara foi criada com o resto de barro usado para criar Adão.

Acho que nunca tinha ouvido falar sobre o Ramadan em outra época da minha vida. Estou cumprindo sacramento mas não me considero uma pessoa das mais cristãs. Fiz primeira comunhão, fui batizada e crismada. Tenho admiração por particularidades de religiões distintas, mas muitas vezes me descobri ateia. Talvez a admiração que eu tenha por outras religiões seja de outras vidas. A vida e seus sabores estão cheios de pontos de interrogação, exclamação e vários três pontinhos. Mas não temos como prever quando será o ponto final, se é que ele existe...

Ramadan Kareem!!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Piquenique em Taif

Nunca imaginei que no Reino da Arábia Saudita, assim como em outros países árabes, eles fizessem tanto piquenique. Mas fazem. São ciganos do deserto! Eu que adoro um passeio e uma farofada, tratei de comprar um tapete com palácios e camelos do deserto estampados. Adquiri uma garrafa térmica em estilo árabe e fiquei esperando o dia que o tal convescote se concretizasse em um canto qualquer.

A oportunidade para o típico piquenique acabou aparecendo. Subimos a serra saudita em direção a cidade de Taif, lugar onde os árabes adoram passear em busca de um calor bruxuleante nas alturas. Pegamos o acesso para não-muçulmanos em direção a cidade e deixamos Meca (capital espiritual do islamismo) para trás. Avistamos as tendas dos beduínos nômades com seus rebanhos de camelídeos. Montanhas de pedras em um solo arenoso. O trajeto de aproximadamente 150km passou rapidamente e nem senti que estávamos a uma velocidade de 170km p/hora. Não entendi a pressa. Me dei conta que estávamos nos aproximando de Taif quando a altitude começou a aumentar drasticamente. Paramos para registrar o cenário através de fotos e percebi o frescor da temperatura em minha pele.

Chegando em Taif as coisas complicaram um pouco, as placas estavam escritas somente em árabe e não tínhamos noção para onde ir. Estávamos com mais brasileiros em outros dois carros, e o aparelho GPS de um deles não achou informações turísticas animadoras. Aliás, como a Arábia Saudita é um dos países mais fechados do mundo, eles não emitem visto de turismo, somente visto de turismo religioso, ou seja, para muçulmanos. Descolamos a visita ao zoológico da cidade e fomos até lá conferir. Não tínhamos muita escolha, o horário do meio dia se aproximava e junto a hora da reza e da sesta, onde tudo fecha por algumas horas. Acabamos entrando e alugamos um carrinho de golfe para nos protegermos do sol do meio dia. Os homens logo abandonaram a direção e o pequeno veículo. Eu assumi o controle da máquina e os olhos sauditas não aprovaram muito. Seguimos o passeio. Pobres animais! O elefante olhava tristonho e o jacaré estava ensopado na água quente e suja acompanhado por garrafas vazias que foram jogadas. Na gaiola do pássaro Quail, havia um gato que descansava tranquilamente na sombra do telhado, talvez fazendo a digestão. Os cães e os gatos ganham destaque, aqui eles são animais de zoológico. Já os camelos e os dromedários pareciam contentes no hábitat arábico.

Fomos até a entrada de outro parque e montamos o piquenique à sombra de algumas árvores. Comemos, bebemos e curtimos um chimarrão rodeados por árvores decoradas com centenas de sacos plásticos tremulando ao vento oriundos do lixo que o povo deixa por onde passa. Não localizamos as famosas plantações de rosas e não andamos no teleférico. Assim, teremos pretexto para voltar à serra saudita.

No retorno, encostamos o carro para ver um bando de macacos babuínos recebendo guloseimas e divertindo as pessoas com seus traseiros vermelhos. Nos despedimos dos babuínos e dos beduínos. Descemos a região montanhosa e voltamos pela estrada envoltos pela imensidão das areias do vasto deserto. Uma vegetação escassa, mas existente e de um verde intenso. Provando que a vida é possível em todos os lugares, em qualquer condição, em toda direção.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Comes, Bebes e Cia

Finalmente provei a carne de camelo árabe. Comi um pedaço da costela (meu corte predileto) deste alto e desengonçado bichão. Mesmo não encontrando a carne de um animal novo no supermercado perto de casa, me surpreendi. Macia e saborosa, semelhante à carne de gado em aparência e sabor. Foi feita à moda gaúcha, assada na brasa, mas com sal fino, já que aqui em Jeddah ainda não encontramos sal grosso para vender. O leite da camela árabe também é bom. É mais saudável e incorpado que o leite de vaca, mas é três vezes mais caro. E, assim como a carne, não se encontra em qualquer supermercado.

Como o consumo e a venda das bebidas alcoólicas são proibidos em toda a Arábia Saudita, as casas de suco de frutas são predominantes na maioria dos locais. Eles também vendem caldo de cana e aparentemente as máquinas são mais evoluídas do que as encontradas no Brasil. Logo que cheguei, comprávamos garrafa de dois litros para beber em casa, mas logo eliminamos este hábito açucarado e calórico. Gosto muito do suco de manga com abacate e mel, tem um gostinho todo especial. Bebo bastante o de limão com hortelã e algumas vezes o suco de romã, super na moda em virtude de seus benefícios.

O manjericão, erva aromática que aprecio pela beleza das folhas e seu atraente perfume, é planta ornamental comum nas arábias. Seu verde vívido enfeita os canteiros e praças da cidade, a área dos condomínios e os vasos das residências. É usado também como uma forma de repelente, pois há épocas em que muitos mosquitos e moscas ficam zumbindo pelo ar. Os pés de manjericão resistem bravamente ao estufante calor e às regas escassas.

Os pães, ah os pães! São delícias das Arábias. Perdição que vem desde os tempos da pré-história. Os pães árabes sempre acompanham as refeições, eles chegam macios e quentinhos na mesa dos restaurantes sob diversas formas. Delicio-me com muitos deles antes da refeição, principalmente no restaurante Al Fairuz, e quando a comida chega, já estou satisfeitíssima. Adoro comprar o pão sírio, aquele chato, preparo torrada com eles. Tem também o markuk, que é tipo uma folha, preparo-os em forma de crepe com diferentes recheios. A durabilidade deles é curta, rapidamente mofam e perdem o encanto. O povo árabe, ainda mais os beduínos, alimentam-se com as mãos, e os pães neste formato servem para pegar os alimentos.

Antes mesmo de definirmos a nossa mudança para Jeddah, já pensava nos cursos de culinária que talvez encontrasse no Oriente Médio. A culinária árabe é uma das mais ricas do mundo, e tinha certeza que encontraria algo. As confeitarias são verdadeiras joalherias; grandes, espelhadas e de encher os olhos. Mesmo com opções limitadas para o público feminino, descolei um curso de decoração de bolos da Wilton, da mesma escola do Canadá e dos Estados Unidos. Uma turma de oito mulheres e eu, a única não muçulmana. Acabei de concluir o primeiro nível, onde duas colegas negavam-se em remover a abaya durante as aulas, e com relutância descobriam o rosto e os cabelos. Fotos dentro da sala de aula, nem pensar! As aulas recomeçam no dia 04 de outubro, e estou com muita curiosidade para conhecer minhas colegas e aprender novas técnicas.

Allah revelou ao profeta Maomé, que uma moça para casar-se, precisa “fisgar” o homem pelo estômago. Este antigo e certeiro ditado que talvez venha do Alcorão (livro sagrado do Islamismo) eu pratico e recito todos os dias. Mas nem só de pão viverá o homem. Ele precisa alimentar-se com todos os sentidos!

domingo, 16 de agosto de 2009

La Gruyère

A viagem gastronômica das férias encantadas está terminando. Elas fazem parte do pretérito suiço perfeito. A vida nada mais é que uma sequência de contos Era Uma Vez, que são escritos por nós diariamente e inclui tudo e todos que dão-lhe sabor.

Fomos passar o dia na cidade de Bex, subimos um bom trecho da rota das montanhas cruzando por rios e cachoeiras abençoados pela natureza do lugar. Almoçamos em um restaurante Bio, o La Soldanelle, e pedi um prato dos deuses. Rösti, também conhecida como Batata Suiça, que é uma deliciosa batata ralada, dourada e crocante. Meu pedido foi caprichado, com reforço de queijo e toucinho. DELÍCIA! Após a refeição, onde a sobremesa e o vinho facilitaram a digestão, continuamos subindo pela rota das montanhas nos Alpes Suiços. Alcançamos o Parque Grand Muveran com suas esplêndidas paisagens e um jardim botânico alpino, com espécies de plantas e flores das montanhas do mundo todo.

O passeio até Luzern (parte alemã da Suiça) também foi valioso. No caminho passamos por um belíssimo e grandioso estábulo todo envidraçado (até mesmo o telhado era de vidro) para que os animais possam admirar a vista ao redor. A cidade de Luzern é tão perfeita que mais parece uma maquete. Tudo muito limpo e lindo!

Tem um programa de culinária muito legal que fez parte do meu dia-a-dia suiço. Un Dîner Presque Parfait, um reality show, onde cinco participantes precisam preparar, em suas residências, um jantar completo aos demais concorrentes. Os próprios participantes é que desfrutam da noite e que dão as notas ao anfitrião no final do jantar. Notas de zero à dez, nos quesitos cardápio, ambiente e apresentação dos pratos. No final de cada semana são abertos os envelopes das notas para saber o vencedor. Fiquei viciada neste programinha de TV. Outro programa bacana de culinária é o Pique Assiette, onde a apresentadora, de uma forma bem humorada, prepara pratos coloridos, práticos e rápidos, inspirados fortemente na culinária mediterrânea.

Depois de comer muito blue berry, morangos e framboesas silvestres que eu mesma colhia na floresta (as mais saborosas e mais doces que já comi), chegou a hora de partir. Guardarei belas recordações das vaquinhas alimentando-se das flores coloridas da mística montanha e da música que seus sinos soavam aos meus ouvidos. Inesquecíveis fadas e borboletas que me fizeram boa companhia, esguios pinheiros guardiões da região encantada de Gruyères. Obrigada à vida por me dar a oportunidade de viver todos estes momentos maravilhosos e encantadores, que nos preenchem com abundância de alegria e amor.

Desejo voltar na primavera, no outono e no inverno!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Petit Sabores

Sempre que viajo a um determinado lugar, gosto de aproveitar ao máximo as delícias gastronômicas do local. Cada região tem suas especialidades, e é assim em qualquer canto do mundo. Sou uma glutona assumida, apaixonada pela culinária, principalmente pelos doces. Adoro um invento culinário, tornando-me algumas vezes uma ameaça ao paladar do meu marido.

Na suiça, hospedada na região de Gruyères, meus sentidos fizeram várias descobertas. Hóspede de uma cozinheira de mão cheia, que morou em vários países, aprendi novas receitas e grandes segredos. Nossas idas ao supermercado e lojas do ramo renderam muito. Com uma paciência de Jó, ela me explicava cada ingrediente e utensílio novo aos meus olhos. Fiquei tremendamente surpresa ao ver uma quantidade imensa de damascos frescos, que coisa mais linda. Delicados! Passava o dia saboreando-os. Sempre tive muita vontade de provar carne de cavalo, mas nunca pensei que fosse finalmente prová-la na Suiça, gostei bastante. Também experimentei interessantes saladas de raiz de salsão e raiz de funcho, bem comuns por lá.

Era uma vez uma cidade onde eram feitas nobres guloseimas e gulodices. Broc fica na Suiça e é uma cidade muito florida e graciosa com seus trens e trilhos enfeitando a cidade. La Maison Cailler é uma chocolaterie. Nesta fábrica de delícias o chocolate ainda é preparado com o leite fresco das vacas. A Cailler tem 190 anos de história e é uma linha requintada da Nestlé. Apenas pela degustação destes chocolates já vale a visita. Precisaria de mais algumas horas para realmente sentir e saborear todos os aromas. Um mais sensacional que o outro, ficou impossível provar todos. Estavam servindo na temperatura ambiente, perfeito para distinguir e apreciar os detalhes. Deleitei-me com os brancos, os amargos e os recheados, até derreterem completamente em minha boca. Adorei o pequeno museu, com as embalagens antigas que envolveram estas preciosidades ao longo de décadas. E, é claro, fiz comprinhas na loja da fábrica, mas somente artigos de primeira necessidade, pois não sou de ferro.

A visita interativa à fábrica do queijo Gruyère foi interessante, fiquei sabendo um pouco da história desta maravilha inventada há alguns séculos atrás. La Maison du Gruyère também possui um restaurante e uma loja com as delícias da região. Nos abastecemos e subimos em direção ao chalé nas montanhas.

O primeiro registro da Fondue na Suiça é do século XVII, quando as sobras de queijos eram armazenadas embebidas com Kirsch (aguardente de cereja), garantindo a durabilidade do alimento durante todo inverno. Hoje em dia ele é misturado ao vinho branco, mas se usa embeber um torrão de açucar cristal ou açucar mascavo na Kirsch e degustá-la entre uma garfada e outra. Ou ainda, para quem perder o pão dentro da panela, ter que tomar um “martelinho” da aguardente de cereja como “prenda”. Eu não perdi nenhum pão, mas adorei sentir o gosto da bebida contrastando com o queijo. Fiz ainda outra grande descoberta, descobri que sou apaixonada pela Raclette (batata com queijo derretido), e comprei os acessórios que faltavam para juntar-se ao aparelho que temos no Brasil e que até hoje não foi usado. Prepararei excelentes Raclettes aos nossos convidados, com direito a todas as pompas suiças.

PETIT SUISSE, PETIT GATEAU, PETIT SABORES, PETIT AMORES!